Lembrou que foi através de uma frase de Drummond que sua cabeça começou a girar com a mesma rotação do mundo de Eduardo e de como passou bons momentos ao seu lado. E quando desceu para cozinha percebeu que tinha um bilhete na porta da geladeira em folha amarela com escritos em preto: O Eduardo ligou, disse que precisa falar com você e que viaja hoje à noite. Não volto pro almoço, te amo, mamãe .Isso era motivo para não saber mesmo o que fazer, há alguns meses atrás, mas ela começou a preparar algo para comer enquanto decidia não responder, afinal de contas ele poderia estar com a preocupação de sempre de que ia perder quem sempre esteve ali para tudo. Por um momento, enquanto abria uma garrafa de vinho tinto suave, sorriu ao saber que dessa vez estava mesmo com a certeza de que as coisas mudaram e, antes mesmo de pôr a mesa para seu almoço solitário, tirou o celular da bolsa e desligou com a intenção de passar o resto do dia em paz.terça-feira, 8 de dezembro de 2009
"But it's no good, no good for me"
Música título: No good for me, The Corrs.
Enquanto dava um jeito no cabelo reparou que seus olhos marcaram uma expressão no espelho. A segunda-feira parecia começar bem porque finalmente conseguiu ter um sono sem interrupção, digo, sem sonho. E era nisso que pensava enquanto escovava o cabelo e o prendia como forma de não sentir tanto o incomodo do calor que abrandava a cidade nos últimos dias. Desceu as escadas com a certeza de que não era um dia comum e senti-se confortável enquanto preparava um café forte, como gostava. Desde que o verão alastrara-se na vida de Bárbara tudo estava de pernas pro ar e ela rezava todos os dias para que o inverno voltasse a bater em sua porta. Antes mesmo de tirar os pés da cama ela passava a mão pela cortina e pensava consigo mesma como as coisas seriam diferentes se ao invés de sol alguns pingos de chuva batessem em sua janela.
E mesmo com o sol escaldante, seu sexto sentido feminino dizia para ir em frente e não deixar mais que os dias apenas passassem. Decidiu tomar um café demorado e, por isso, teve o cuidado de acordar bem mais cedo que geralmente acordava. O ambiente parecia ainda mais quente enquanto os goles de café desciam e esquentavam a mente e ela simplesmente tentava organizar as idéias, uma espécie de balanço geral ou, quem sabe, uma maneira de somando os erros e os acertos, apagar a maioria do que achasse não necessário. Antes mesmo de pegar os livros notou que o celular piscava, anunciando uma mensagem. Involuntariamente seus dedos passaram por sobre os botões do telefone e abriram a envelope, apesar de, no fundo, ela ter jurado para si que não mais acreditaria em algumas palavras e que seguiria sua vida, sua primeira segunda-feira de sono tranqüilo; seu futuro chamava por ela em um mundo diferente daquele que ela criará até hoje.
Era espantoso ver aquelas letras formando aquela frase que, infelizmente, não acabava no ponto final. Primeiramente ela estranhou as aspas, ele nunca gostou dessas coisas, mas era mesmo bem o perfil dele uma frase de Nelson Rodrigues, pensou enquanto o sorriso escapava no canto da boca. Então era assim: “Qualquer um de nós já amou errado, já odiou errado”, tenha um bom dia, podemos conversar depois? Um beijo, Eduardo. Ela pensou que talvez esse fosse o problema, acreditar em um terço de palavras bonitas e que conotavam esperança, e como era fácil enganar uma mulher apaixonada. O que, ela ainda não sabia, mas não parecia mais ser o seu caso. Bárbara simplesmente colocou o celular no silencioso, pegou suas coisas que estavam ainda espalhadas sobre a mesa da sala desde o final da noite passada e fechou a porta de casa apostando na realidade.
As primeiras aulas foram tranqüilas e ela parecia não se importar muito com comentários vazios que rodeavam a sala que iam desde fofocas das celebridades até a vida do professor que estava tentando ministrar a aula. As conversas que manteve, nessa segunda-feira escaldante a deixaram um pouco balançada, como decidiu passar o final de semana sem sair de casa, por mais que sua mãe insistisse para que ela aproveitar um pouco das primeira noites de verão ela preferiu ficar em casa, talvez fosse mais proveitoso. Então a primeira coisa que Melissa disse, antes mesmo de um bom dia foi que tinha encontrado Eduardo, no sábado.
- Então você acha que ele estava mesmo com alguém, Mel?
- Bem, não posso dizer o que não vi, mas você deve tomar cuidado, Babi. E, ah, ele perguntou por você.
Elas estudavam juntas desde os sete anos de idade e tinham essa intimidade, mas Bárbara notou que Melissa escondia alguma coisa e, no caminho para casa, essas palavras embaralharam ainda mais qualquer que fosse os planos para o resto do dia e junto à mensagem que não respondera, as coisas complicavam um pouco mais. Enquanto tomava um banho para preparar o almoço ela brigava com a idéia de responder aquelas palavras que aparentavam doçura, mas lembrou que suas últimas leituras de Nelson Rodrigues não foram nada agradáveis e, por isso, não respondeu.
Lembrou que foi através de uma frase de Drummond que sua cabeça começou a girar com a mesma rotação do mundo de Eduardo e de como passou bons momentos ao seu lado. E quando desceu para cozinha percebeu que tinha um bilhete na porta da geladeira em folha amarela com escritos em preto: O Eduardo ligou, disse que precisa falar com você e que viaja hoje à noite. Não volto pro almoço, te amo, mamãe .Isso era motivo para não saber mesmo o que fazer, há alguns meses atrás, mas ela começou a preparar algo para comer enquanto decidia não responder, afinal de contas ele poderia estar com a preocupação de sempre de que ia perder quem sempre esteve ali para tudo. Por um momento, enquanto abria uma garrafa de vinho tinto suave, sorriu ao saber que dessa vez estava mesmo com a certeza de que as coisas mudaram e, antes mesmo de pôr a mesa para seu almoço solitário, tirou o celular da bolsa e desligou com a intenção de passar o resto do dia em paz.Já com a taça de vinho na mão, sentada à mesa e escutando a melodia de La vie en rose sentia-se confortável por não ter sonhado e por deixar que uma gota do vinho caísse sob o bilhete amarelo.
domingo, 22 de novembro de 2009
"A gente ria tanto desses nossos desencontros"
Música título: A outra de Los Hermanos
Não foi bem isso que eu quis dizer, talvez você tenha entendido errado e agora fugiu do pensamento tudo que realmente você deveria escutar. As coisas ficaram mal entendidas e as palavras embaralhadas como as cartas que um dia jogamos em cima da mesa para organizar por naipes, até hoje elas continuam lá. Não me lembro de ter acabado o jogo, sinceramente.
Hoje em dia eu sinto uma paz quando falo com você, acho que nunca comentei isso, também não pretendia comentar, mas as oportunidades aparecem e eu aprendi, acho que por sua causa, também, que não devemos nunca perder a oportunidade. Então eu fico feliz em ter tuas letras assim, estampadas. Porque mesmo que elas não digam nada, elas mostram que, naquele momento, você está dando atenção a mim e as letras sempre tiveram um grande significado em minha vida, sempre leio coisas mais bonitas do que escuto, então você ainda está na vantagem. Mas isso não quer dizer que eu não goste de olhar olho no olho, sabe? Na verdade, eu até prefiro. Os olhos nos mostram um pouco mais de sinceridade.
E eu gosto quando somos sinceros um com o outro, isso nos fez bastante falta, ou ainda faz e a gente nem sabe. O que eu sei mesmo é que depois que começamos a nos olhar e sorrir, igualmente, as coisas começaram a se encaminhar. Só para constar: um sorriso sincero abre várias portas. E, como é que a gente sabe se o sorriso é sincero? Não adianta enganar, no fundo a gente sempre sabe quando uma pessoa bate a nossa porta vendendo seu peixe com sinceridade. Aí a gente compra com amor, ou não. No final o resultado é sempre mais interessante para quem comprou com amor, mesmo que a oferta não tenha sido sincera.
É por isso que dizem que amor só se paga com amor. Tenho acreditado muito na possibilidade de que só quando eu pagar todo o amor que eu gastei eu vou poder receber algum troco. E acho que isso tem feito a diferença porque não adianta a gente entender isso tudo que eu já disse aí em cima, saber que fomos e inexistimos, ao mesmo tempo, um para o outro se a gente não assumir que foi assim, se não apontarmos os erros e se não pretendemos fazer diferente. E não é viver de passado, é aperfeiçoar o presente. Porque amor nunca é passado, o passado é arte já pronta e o presente é arte em criação.
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
"Eu procuro acordar e perseguir meus sonhos, mas a realidade que vem depois"
Música título: Eu quero sempre mais por Ira!
Fiz piada de nós dois, fiquei em cima do muro, tentei não anotar nada pra não guardar tudo como de costume. Atropelei os sentimentos e fui à busca do que mais queria, é quase sempre isso que eu faço, atropelo sentimentos. Aí chego não sei onde, muitos dizem que no fundo do poço, mas prefiro acreditar que não conheço o lugar. Lá eu paro, penso um pouco no crime cometido e tento seguir em frente com a intenção de não mais fazer o mesmo. O que acontece algum tempo depois? Meus pensamentos estampam a manchete ainda suja de sangue. Dizem que quando essas coisas acontecem precisamos respirar outros ares ‘uma espécie de viajoterapia’, talvez, penso eu. No meu caso, essas coisas não adiantam muito, nunca consegui apagar o que desejo. E desejar já é uma forma um pouco brusca de querer viver, já ouvi dizer que quem deseja tem sempre um futuro em vista, mesmo que seja o fundo do poço ou um lugar desconhecido. Enquanto for presente, a vida é desejo. Depois, quando for futuro, a vida pode ou não ser realização. Nós dois, por exemplo, não somo nem desejo nem realização, porque nós não acreditamos em nós, nós nos fizemos pelos desejos dos outros.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
"And nothing to get hung about Strawberry Fields forever"
Música título: Strawberry Fields forever, The Beatles.
Eu fiz cara de quem não estava, realmente, entendendo nada e ainda pensei duas vezes se eu deveria responder alguma coisa porque nós sempre sabemos o momento no qual devemos estar em silêncio, nunca ficamos. Mas depois compreendemos como era importante não abrir a boca exatamente naquele momento que saiu por ela o que não gostaríamos de dizer ou ouvir ou sei lá o que. Eu costumo pensar que uma coisa leva a outra e assim vamos levando a vida, como se o importante mesmo fosse essa deselegância de empurrar tudo com a barriga.
Minha vontade era chegar pra você e abrir o jogo. Enquanto eu pensava nisso veio em mente aquela sua blusa vermelha, aquela que é vermelho-cor-de-morango que eu adorava quando você vestia. Lembro que você tinha essa coisa nada espontânea de querer agradar com aquilo quem você tanto gosta e você era um “eu” desordenado, sem jeito, mas cheio de carinho e boa vontade para com a minha pessoa. Eu é que só notava tua blusa vermelha.
As lembranças têm esse poder de nos tornar náufragos, de querer nos afundar no passado vazio e eu acho que é por isso que você tem tanto medo de puxar qualquer simples lembrança, qualquer coisa doce, qualquer coisa triste, a chuva que caiu e por isso a gente não se encontrou naquela tarde tão esperada, o sorvete não tomado, a caminhada que não fizemos juntos, ou até mesmo o sorriso sincero que conseguimos nos dar.
Se eu tentasse matar você, dentro de mim, eu teria sucesso porque você já se foi a muito tempo, na verdade, seu tempo já passou. Não sei se chegamos a comentar sobre isso, mas as pessoas têm seus tempos na vida das outras, sabe? E cada uma tem o tempo suficiente de deixar alguma coisa, a mínina que seja, a pior que seja, mas deixa. Você deixou uma blusa vermelha-cor-de-morango, algumas palavras bonitas, alguns sorrisos mais bonitos ainda e os olhares mais sinceros que eu já recebi em toda a minha vida.
Agora faz de conta que eu não disse isso, lembro muito bem que você é dessas pessoas que gosta de elogios, que você tem uma caixa especial só para eles, porque você recebe muito e não conseguia mais contar nos dedos, preferiu guardar para que ninguém pedisse de volta. Pois é, eu pediria alguns de volta, mas tudo bem, já faz um tempo que eu aprendi como é importante se doar por inteiro, doar até as palavras e quando terminar de dizer cada uma, lembrar que se eu já disse o mínimo “oi”, esse mínimo “oi” agora é da pessoa que o direcionei. Como aquele “eu te adoro” que a gente trocou muitas vezes.
Eu acabei abrindo o jogo demais sobre sua blusa vermelha-cor-de-morango, mas é assim mesmo, milhares de pessoas podem ter uma blusa vermelha-cor-de-morango, mas para mim a única do mundo é a sua, as outras serão só vermelhas e se eu escutar vermelha-cor-de-morango eu só vou lembrar-me da sua, uma vez que os falantes não conseguem pesar as palavras, só os ouvintes. E as palavras, nas nossas vidas, dependem do peso que elas carregam porque enquanto estão sozinhas elas flutuam e conseguem ser bonitas, mesmo com a escrita feia. Palavra só se configura no sentido de palavra, mesmo, quando se encaixa com outras. Aí vem o peso.
Agora imagina se eu não tivesse feito de cara de quem não quer nada, enquanto você perguntou como eu estava eu teria te falado isso tudo, tirando só as vírgulas para ser mais rápida e fazer você entender menos as coisas e te embriagar com as palavras, sem medir nenhuma.
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Entre números
Fomos um qualquer inexistente
Um vazio inexistente
Um filme inexistente com valor imaginário
Uma canção que não fez sucesso
Uma pedra jogada no fundo de
um rio que até hoje desagua sem saber aonde.
Porque no fundo mesmo nós fomos dois
e talvez esse foi o erro.
Par quando é par
no fundo do mar
torna-se ímpar.
torna-se ímpar.
(Ingrid Brasilino)
terça-feira, 6 de outubro de 2009
"ouça-me bem, amor, preste atenção o mundo é um moinho"
Música título: O mundo é um moinho de Cartola
- Pois eu cheguei sem pedir licença, fiz um estrago danado na vida dela, inclusive fiz alguns buracos no coração, como se tivesse vontade de partir ao meio, mas como eu sei que coração é tal e qual cauda de lagartixa, eu só fiz uns furinhos para ele exercitar a capacidade de se regenerar. Também fiz com que ela chorasse na frente do espelho e escondido dos outros enquanto escutava uma ou outra música e acho que uma vez escutei alguém dizendo, sem querer que eu escutasse, é claro, que depois que eu fiz tudo isso a ela, as mulheres andam fugindo e escondendo até a sombra com medo que eu roube você delas.
(O amor dizendo a felicidade)
sábado, 3 de outubro de 2009
"Se lembra quando a gente chegou um dia acreditar que tudo era pra sempre?"
Música título: Por enquanto na voz de Cássia Eller.
- Na vida acontece esse tipo de coisa, né?
- De que tipo de coisa você está falando?
- Desse modo instantâneo de felicidade e de como as pessoas acreditam em felicidade.
- É, eu vejo muita gente por aí que sorri aos quatro ventos, diz que é feliz, e adora escancarar essa felicidade para os outros. Também vejo os infelizes, pobres pessoas tristes e remoendo sentimentos.
- Acontece que pessoas felizes também remoem sentimentos, é que elas não sabem.
- Como assim elas não sabem?
- A felicidade é tão exagerada que, por se dizer que ela existe demais, ofusca o resto da vida das pessoas eternamente felizes.
- E qual é o problema? Eu acho muito bonito quem consegue ser sempre feliz.
- O problema, meu querido, é que não existe uma vida completamente feliz e, por não existir, as pessoas que acreditam nesse estado eterno de felicidade, esquecem de viver.
- Que papinho de psicólogo esse da gente, né?
- É, você esqueceu que somos psicólogos?
- Na vida acontece esse tipo de coisa, né?
- De que tipo de coisa você está falando?
- Desse modo instantâneo de felicidade e de como as pessoas acreditam em felicidade.
- É, eu vejo muita gente por aí que sorri aos quatro ventos, diz que é feliz, e adora escancarar essa felicidade para os outros. Também vejo os infelizes, pobres pessoas tristes e remoendo sentimentos.
- Acontece que pessoas felizes também remoem sentimentos, é que elas não sabem.
- Como assim elas não sabem?
- A felicidade é tão exagerada que, por se dizer que ela existe demais, ofusca o resto da vida das pessoas eternamente felizes.
- E qual é o problema? Eu acho muito bonito quem consegue ser sempre feliz.
- O problema, meu querido, é que não existe uma vida completamente feliz e, por não existir, as pessoas que acreditam nesse estado eterno de felicidade, esquecem de viver.
- Que papinho de psicólogo esse da gente, né?
- É, você esqueceu que somos psicólogos?
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Um pedaço de vida: felicidade
(texto de abril de 2009)
Foi embora toda aquela idéia de que ia ser feliz com muito ou com pouco. Felicidade é um desses sentimentos que aparecem e desaparecem sem que a gente possa guardar em baú e trancafiar aos cadeados. Uma espécie de nuvem de algodão doce, uma vontade de sorrir, uma carência de mostrar alegria, uma vontade de gritar, uma euforia única e real, porque a gente só é feliz de verdade quando a felicidade existe. E a gente só sabe que ela existe quando compartilha. A gente não guarda felicidade, guarda instrumentos para chegar até ela.
O pensamento esbanja felicidade, ele vive, ele pode. O pensamento compartilha a felicidade com o rosto, com as palavras, com os gestos. Então, felicidade não é rir à toa ou chorar de emoção, nem é quantidade. Felicidade é mesmo uma idéia simples de tornar os atos livres e tão mágicos. Pois é, a magia faz parte da felicidade, ainda não descobriram a formula para chegar até lá. Antes eu queria fazer da felicidade uma ciência com tudo detalhado e bem escrito pra que as pessoas andassem por aí sorrindo aos quatro ventos e sem medo de aplicar as formulas que aprenderam na escola da vida. Mas a gente muda, né? Parafraseando Guimarães Rosa, a gente afina e desafina. E eu desafinei em muitas felicidades e em muitas tristezas, também. Depois consegui entrar no tom e afinei os pensamentos ao ritmo das palavras. E quer saber um segredo? Foi só assim que consegui saber como é um paradoxo vivo essa tal fé felicidade.
O amor também é outra coisa que não escreve sem colocar felicidade, nem que seja no começo, no meio, no ponto final ou em todos eles juntos. É o amor! Sempre que leio sobre o amor eu fico com algumas interrogações e outras exclamações. Isso é natural e não por que eu queira. Amar é ter vida e morte nas mãos. Eu não precisei ir muito longe para saber disso, precisei, apenas, entender as letrinhas que tanto se repetem. Eu aprendi que o amor nasce com os olhos e ainda acho que é regado com sorrisos, porque a gente ama aquilo que enxerga – nem que enxergue só em sonho – e quando a gente ama o sorriso é um ato involuntário. O amor é mesmo uma relação de troca abstrata, gostas de felicidade.
Essas coisas a gente sempre aprende aos pouquinhos, nunca a figura é completa, porque a arte tem esse molejo de não se satisfazer com pouco. A arte também pinga felicidade em gotas pequenas e sem limites. E é isso o interessante, essa coisa de não ter medo de ir além, de pingar um vermelho em cima do azul e no meio das duas cores fazer nascer o roxo. Felicidade tem sempre um pouco de nascimento, de criação e um pouco de criança, também. Porque dizem por aí que nos dias de hoje a gente cresce e perde a criança que nasceu, pois eu não acredito, porque adultos não sabem ser felizes, se o são quem faz isso é a “criança” que existe dentro de cada um.
Foi embora toda aquela idéia de que ia ser feliz com muito ou com pouco. Bateu à minha porta a idéia de qualidade, a quantidade fica pra quem não consegue compartilhar, afinal de contas a gente só é mais quando não compartilha, quando não é feliz. E como disse o mestre: “Pra que somar se a gente pode dividir?”.
domingo, 27 de setembro de 2009
"Mas deixa eu fingir e rir"
Música título: Sentimental de Los Hermanos.
A cena final, quase sempre, ou é um grande beijo ou uma grande briga, desde que seja grande. No caso dela, terminava em um grande beijo. Mas já era tarde da noite quando ela olhou para céu e, apertando bem a mão que estava junto a sua, não conseguiu achar diferença entre a distância das constelações e a distância entre corações, que batiam lado a lado, mas que sussurravam longe, ao longe.
"E não, não há nenhum relógio pra fazer voltar. O tempo voa"
Música título: Ainda não passou de Nando Reis.
Já faz um tempo e eu ainda não tinha materializado as coisas, os pensamentos, as nossas palavras. Não foi por não querer ou por achar que elas não merecem estar em um nível maior de memorização do que as outras que vou acumulando por onde passo. Nossas palavras me tocam tão fundo até hoje, que eu, por medo de fazer pouco delas, quero guardá-las só para mim, até o dia em que eu consiga expulsa-las. Eu sei que nós somos capazes de guardar qualquer coisa material, qualquer bilhete, presente, etc. E esse foi outro motivo para não colocar o ponto nos “Is” de todas as palavras que saiam sem pena de nós dois. Descobri que somos seres capazes de guardar o amor, como quem cultiva uma flor que é só sua e guarda-a ali num cantinho qualquer do coração. É mágico guardar sentimento.
Não sei se estou sendo clara, mas a minha intenção ao escrever todas essas palavras que estão aí em cima, foi unicamente de te dizer que eu tentei esquecer o que foi dito e redito e todas aquelas palavras que eu consegui repetir na frente do espelho, sozinha, mas que foi em vão. É que as pessoas ainda acreditam na ilusão do esquecimento, acreditam na esperança e esquecem que história, uma vez feita, não se apaga.
As coisas andam distantes, na verdade, nós andamos distantes. É como se os nossos pés procurassem o mesmo caminho e, ao mesmo tempo, fossem obrigados a seguir caminhos diferentes, longe um do outro, sem ter a possibilidade de escutar a voz, de olhar nos olhos ou de calar a boca. Você sabe que eu faço muitas analogias e que, se depender da minha força de imaginação, eu consigo prever tanta coisa com o nosso nome junto e com ele separado, mesmo que desse último não goste muito. Imaginei que existe uma pedra no nosso caminho, acho que foi a possibilidade mais simples na qual consegui chegar sem sentir muita dor por dentro. E percebi que o nosso problema foi, exatamente, não saber como carregar a pedra até o final e montar o castelo.
Então fomos obrigados a seguir caminhos distintos, pelo menos até o momento em que a pedra apareça novamente. Talvez ela apareça daqui a alguns anos, talvez demore uma eternidade para aparecer de novo, ou quem sabe nos encontremos em frente a ela amanhã. Nosso destino virou desenho sem traço bem feito, uma pintura sem contorno, qualquer coisa passiva ao que quer que o mundo nos dê. E isso tudo aconteceu porque não soubemos como levantar a pedra e levá-la, juntos, até certo momento da estrada.
É impressionante como lembro de você quando leio qualquer frase do Caio Fernando Abreu, e não é porque você gosta, mas é simplesmente porque ele escreveu pra gente e não sabia. Em algumas de suas muitas palavras ele chegou a dizer Como é mesmo que minha mãe dizia? Quem não é visto não é lembrado. Longe dos olhos, longe do coração. Pois é. Dessa vez eu tive que concordar em partes, porque você está longe de mim e mesmo que você quisesse me achar, seria em vão qualquer busca e mesmo que você gritasse e implorasse a Deus para, pelo menos, olhar nos meus olhos pela última vez, seria impossível. É o castigo de quem não consegue carregar as pedras.
Pois é, eu esqueci que no nosso caso as coisas acontecem sempre no plural, então nosso castigo talvez seja maior porque passamos por várias pedras e deixamos que elas ficassem lá, como jovens amantes inocentes que, em pleno fogo adolescente, pula as pedras e ri da própria dor que sente e não enxerga a dor do outro simplesmente porque o outro também seguiu sorrindo. E por excesso de sorriso, a gente acha que é feliz. E é só quando chega lá no fundo, no fim de um dos caminhos da nossa vida, que percebemos que algo de errado aconteceu. Mas preferimos não notar. Porque quando não notamos, o “longe dos olhos, longe do coração”, ganha sentido. Quando notamos, quanto mais longe dos olhos, mais perto do coração.
sábado, 19 de setembro de 2009
"Sair distraído, espalhar bem-querer"
Música título: Deus me proteja de mim, Chico César.
Eu, muitas vezes, fico calada sem querer, não sei se isso é comum, mas não deve ser normal ter que fechar a boca para muitas coisas. Na verdade, ter que fechar os olhos para muitas coisas. O mundo é esse redondo estonteante que nos embriaga, essa constelação de estrelas que quando piscam como pisca-pisca de árvore de natal quer avisar alguma coisa, esses números que nos rodeiam, esses livros que nos apóiam e as pessoas e os sentidos e ainda envolvendo isso tudo e um pouco mais, os sentimentos.
Não sei se incorporei o Caio Fernando Abreu quando ele diz que anda meio fatigado de procuras inúteis e sedes afetivas insaciáveis. Mas é assim que tenho olhado e percebido as coisas, está tudo tão pouco, tão minimamente intrafegável. Dizem que não devemos procurar a felicidade, mas todo mundo adora quando a encontra. Procure sim, vá até o fundo do poço, se for preciso, para achar. A vida é dos que correm atrás da borboleta, quase voando, e não dos que ficam esperando que ela pouse no ombro.
(Só para não deixar isso aqui às moscas, prometo que agora volto com maior frequência, como antes)
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
"Mas eis que chega a roda viva e carrega o destino pra lá"
música título: Roda viva de Chico Buarque
Nunca pensei que fosse tão difícil colocar um ponto final, antes achava que seria tão mais simples terminar uma frase não como uma frase qualquer, mas como se a frase fizesse sentido. Eu tinha a impressão que era simples dizer algumas palavras bobas, eu falava e você entenderia e o que nem começou acabava. Parece-me que eu usava roupas azuis de tão leve que eu imaginava ser quando tomei algumas decisões, porque são sempre as decisões que nos deixam leve no começo que atormentam, depois. Mas acontece que as frases que eu disse foram tão bobas e sem sentido que você fez questão de nem prestar atenção e seguimos em frente. Ou você não entendeu o sentido da frase e seguimos em frente. Ou, até quem sabe, você ficou com medo de entender o sentido da frase e seguimos em frente. Pensei também na possibilidade de você ter entendido o sentido da frase, olhado bem pra dentro de você mesmo e chegado à conclusão de que era bem melhor dar uma de não entendido e seguimos em frente. Pelo menos nós seguimos em frente, tem gente que segue logo para trás e vive de passado um bom tempo. Nós seguimos para frente com um passado muito mal resolvido, foi isso.
Acho que esse é um dos problemas das mulheres, meninas, adolescentes: esperar um “não se vá”, querer escutar um “e se eu te pedisse pra continuar?” “E se eu te dissesse que ainda não chegou o momento de você dizer essas frases e que elas estão tão fora de tempo e tão desordenadas que vão passar pelo meu ouvido como ruído?”. Mulher espera insistência, é isso mesmo, elas esperam que eles peçam que elas fiquem. Podem até dizer que é insegurança que eu continuo acreditando que não, continuo defendo que é falta de pimenta na relação. Nenhuma mulher vai assim tão longe se alguém lhe parar no meio do caminho com um olhar terno e sincero, umas mãos fortes, um beijo quente e umas palavras ditas só para elas. Elas só esperam que eles façam isso, no pensamento das mulheres é muito fácil olhar para o outro e pedir pra continuarem juntos, mulheres sabem alegar saudade.
Eu notei que com os homens a coisa muda de figura, primeiro eles não sabem alegar saudade, eles simplesmente dizem que estão com saudade usando todas as letras e esperam que as mulheres acreditem. Mas ainda não toquei no ponto, o problema dos homens é um pouco mais complicado porque eles são ensinados, como os antigos espartanos, a não chorar e a manter um tipo apático e a excluir do vocabulário qualquer frase que vá ferir sua moral ou qualquer comportamento apaixonadinho que os tornem ridículos – eles usam a palavra “ridículo” para isso embora não sejam - diante dos outros. E aí deixam a felicidade escapar. E aí a tristeza funciona como mecanismo de defesa e a insistência vira mais uma palavra riscada da lista.
Não acredito mais que no jogo do amor sempre um vai ganhar mais e o outro perder mais, comecei a acreditar na igualdade e que não é preciso medir esforços porque uma hora ou outra a vida dá sinal oposto e a igualdade se revela. Uma reviravolta danada de braba, como diriam aqui no Nordeste, parecendo aquela roda gigante que aparece aqui na cidade uma vez no ano e que uma hora começa rodando pra frente, depois já ta rodando pra trás, por isso que a cadeira é tão apertadinha e só cabe um casal, que depois que sobe nela não quer mais descer.
terça-feira, 25 de agosto de 2009
"E que ter medo de amar não faz ninguém feliz"
Música título: Medo de Amar de Vinicius de Moraes
- Outro dia o olhar parecia uma entrevista, não sei se foi a chuva que estava caindo que deixou aquele ar de frieza no amor do olhar.
- E você chegou a perguntar se ela ainda te amava?
- Não sei se me amam, porque eu sempre tive medo de amar. Assim eu não sei diferenciar o meu amor do amor que os outros sentem por mim.
- Pois é, (eu também nem sei sobre essa coisa de amor, na verdade, o meu amor é calado, essa minha palavra, também calada, é sem sentindo e até aquele rosto calmo e sereno que eu faço, às vezes e você reclama, são só coisas diferentes que eu faço sem querer pensando que você vai descobrir como é enorme o amor que eu tenho aqui dentro. Nunca tive paciência pra não amar, minha felicidade depende desse amor gigante que cresce aqui dentro e é cultivado único e exclusivamente por mim. Não é que eu não ame ninguém, acho que as pessoas tem medo de me amar.) eu também.
domingo, 23 de agosto de 2009
"Mexe qualquer coisa dento doida"
música título: Qualquer coisa de Caetano VelosoUma das minhas maiores vontades é fazer teatro. Acho aquilo tudo tão lindo, os atos, as cenas e os atores que pintam o rosto e os atores que contam piada e aqueles que choram e as pessoas que assistem e que vão ao teatro por reconhecimento do trabalho do ator, diferente dos telespectadores. Depois que eu cresci, eu entendi que queria muito mesmo fazer teatro, que em todas as particularidades da nossa vida aquela famosa frase clichê dizendo que temos que encenar enquanto é tempo porque depois que a cortina fecha, acabou, faz sim sentido.
Outro dia me vi chorando na frente de espelho e pensei que daria uma boa atriz de teatro porque consegui chorar olhando para alguém, e o alguém era eu – o que é pior. A gente olha pro espelho e rir, fica sério, faz careta, mas é difícil olhar pro espelho, chorar e agüentar o choro, o nariz vermelho como uma pimenta e as bochechas verdadeiras maçãs. Nesse momento descobri que é lindo chorar e que a gente precisa sim saber chorar para ser atriz de verdade, daquelas que incorporam o personagem e não apenas o fazem parecer mais um. Os grandes são por completo, os pequenos são por necessidade.
Acho que eu gosto do teatro porque no teatro a gente não tem surpresa, a peça acaba em algumas horas e todo mundo fica sabendo do final. Diferente das novelas, a gente precisa acompanhar todos os dias, analisar os personagens várias vezes porque eles mudam com as horas e a vontade do autor. Eu gosto do teatro porque o teatro é aquilo e acabou e, sendo assim, parece até que sou prática, mas eu admito que com toda essa meu perfeccionismo eu sou complicada, e muito.
Um dia eu comecei a imaginar que eu estava lá, o palco era meu e a casa estava lotada. Muitas vezes a imaginação tem sim essa capacidade de nos transportar para outro mundo. E aquele vestido longo e vermelho e eu a recitar versinhos de amor. Não lembro bem em que peça eu quis me imaginar, sei que era alguma coisa como Romeu e Julieta ou Tristão e Isolda, todas acabam em tragédia. Aqueles amores absurdos, os beijos escaldantes como sol aqui no Nordeste, as paixões à flor da pele. É esse tipo de teatro que eu me vejo fazendo. Uma palavra ou outra de Lispector ou de Caio Fernando Abreu, um espírito de Carpinejar – pra tornar a coisa mais comum - e o toque feminino e moderno de Martha Medeiros. É nesse tipo de palco que me imagino, o clássico do amor com o moderno da paixão e, de quebra, a antiguidade do trágico.
Acho que eu gosto do teatro porque no teatro a gente não tem surpresa, a peça acaba em algumas horas e todo mundo fica sabendo do final. Diferente das novelas, a gente precisa acompanhar todos os dias, analisar os personagens várias vezes porque eles mudam com as horas e a vontade do autor. Eu gosto do teatro porque o teatro é aquilo e acabou e, sendo assim, parece até que sou prática, mas eu admito que com toda essa meu perfeccionismo eu sou complicada, e muito.
Um dia eu comecei a imaginar que eu estava lá, o palco era meu e a casa estava lotada. Muitas vezes a imaginação tem sim essa capacidade de nos transportar para outro mundo. E aquele vestido longo e vermelho e eu a recitar versinhos de amor. Não lembro bem em que peça eu quis me imaginar, sei que era alguma coisa como Romeu e Julieta ou Tristão e Isolda, todas acabam em tragédia. Aqueles amores absurdos, os beijos escaldantes como sol aqui no Nordeste, as paixões à flor da pele. É esse tipo de teatro que eu me vejo fazendo. Uma palavra ou outra de Lispector ou de Caio Fernando Abreu, um espírito de Carpinejar – pra tornar a coisa mais comum - e o toque feminino e moderno de Martha Medeiros. É nesse tipo de palco que me imagino, o clássico do amor com o moderno da paixão e, de quebra, a antiguidade do trágico.
Nunca me vi fazendo comédia, apesar de adorar rir para todo mundo que me faz bem e me proporciona boas conversas não é bem esse o tipo de coisa que me faz feliz porque eu tenho dentro de mim essa essência de eterna apaixonada, a essência dos últimos românticos, de que é sempre uma tragédia que vai mudar o rumo, abrir caminhos, de que nada vem fácil.
Mas minha experiência com teatro sempre foi imaginária, sempre fui uma pessoa tímida para palcos e acho que já basta o da vida. E tem mais, acho que meu espírito teatral é esse porque é esse o espírito que tenho em vida e é esse o cenário que projeto, o texto que eu escrevo e é esse o meu jeito de ver o mundo, um jeito sempre apaixonado, um jeito trágico. O cômico é só para não perder o momento da risada, que também é lindo, mas não tão quanto o momento da tragédia.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
[O miolo] "Dentro de tudo que cabe em ti"
música título: Sutilmente de SkankAcordei com vontade de ser feliz, levantei da cama com os olhos já bem abertos como uma criança quando os abre pela primeira vez, com sede de visão. Eu abri os olhos com sede de felicidade e com uma confiança incrível na minha verdade, no que eu acredito, apesar de não saber muito bem a diferença entre a verdade e o que eu acredito. Se eu fosse passar isso para as palavras de Martha Medeiros diria que acordei com vontade de viver até a última gota, pena que o copo era pequeno demais.
É com o passar do dia que noto como o copo é pequeno e como a última gota sempre chega mais rápido do que esperamos. Tudo bem, não generalizarei os casos, mas é quase sempre assim, a gente quase nunca percebe que está chegando lá, que precisa fazer uma coisa ou outra, que tem algum prazo pra cumprir. A gente é sempre quase, alguns são quase muito, outros quase pouco e, acredite, tem gente que consegue ser quase um detalhe.
Eu gosto de ser quase um detalhe, muitas vezes, é uma maneira um pouco complicada porque são poucas as pessoas que acreditam no detalhe. Não sei se eu já disse que gosto de detalhes. Pois bem, se não falei, falo agora. Gosto do detalhe dos presentes, desde as fitinhas que fazem um laço lindo até quando abro, porque depois que abre perde a graça, perde o detalhe. Gosto do detalhe dos travesseiros na cama, que mesmo se for de solteiro tem que ser em número par e não porque esteja esperando que outro alguém ocupe o outro travesseiro, é tudo uma questão de detalhe.
Gosto do detalhe dos amigos, eles são sempre poucos que formam uma coluna especial, cada um com sua peculiaridade, mas o detalhe não é a peculiaridade de cada um, o detalhe é como ela chega até você. Também gosto do detalhe do telefone celular, a gente só atende quando quer. Essa praticidade de mp3, então, nem se fala. É só não atender e deixa a musiqueta tocando até cansar de cantarolar junto. O detalhe das fotos também é impressionante, todos vão direto ao ponto: os defeitos, algumas vezes inexistentes, mas é tudo uma questão de detalhes.
As palavras só têm detalhes quando escritas – a pontuação - porque o detalhe das falas é outro. Um detalhe que todo mundo deve adorar é a comida, não, a comida em si não é o detalhe, mas a sensação de saciedade, isso sim é um detalhe. Nesse caso eu posso aprofundar um pouco mais dando alguns exemplos: entre um prato de salada todo colorido, uma fatia de torta de chocolate com cobertura e pedacinhos de morango e a saciedade, onde fica o detalhe? A resposta é quase única, mas depende do ponto de vista, o que também já é outro detalhe. E se tem um detalhe para eu gostar é esse do ponto de vista, todo mundo concorda, com o detalhe, claro. O detalhe do namoro? É, já foi o amor, deixou de ser a confiança, passou a ser a fidelidade e hoje em dia é o orkut. Entrando nesse ponto de relacionamentos, o detalhe do casamento é a junção das escovas de dente, porque depois que uma acorda todos os dias com a respiração da outra, a coisa complica aos pouquinhos e aí o detalhe já muda, passa a ser o jogo de cintura.
A felicidade tem um detalhe peculiar e explicito: o sorriso. Tanto é que dura o tempo necessário para tornar-se inesquecível. Pois é, as sabedorias de rodoviária também têm seus detalhes, feios e bobos, mas têm. Até as fofocas, coitadas, vivem de detalhes, da vida dos outros, mas vivem e tão bem que estão aí até hoje sem data de validade. O detalhe dos vinhos chega quando terminamos a primeira garrafa e encomendamos o fim de outra, já imaginou, né? Pois bem, se não falei, falo agora parafraseando Roberto Carlos, detalhes pequenos são coisas grandes demais para serem esquecidos e, ah, meu bem, a gente dá a César o que é de César, posto não se toma, independente do letrista o detalhe é a letra da música e detalhe que é detalhe nunca perde a majestade.
"Diga onde vão meus pés que eu lhe sigo também"
música título: Luz dos olhos de Nando Reis
Tenho a leve impressão que você deve saber que eu penso em nós dois, em como as nossas vidas chegaram, em algum momento, a ser quase como uma só, a ser como dois rios que se tocam por alguns momentos do dia, até que um passe pelo outro e vá embora sem se preocupar com a futura sede daquelas águas. E eu tenho que admitir, em momento primeiro fui a mais egoísta das criaturas e não me preocupei com você, vivi como se outros rios suprissem aquilo que poderia encontrar em você.
Eu sempre tive essa idéia de que passaria pra nós dois, eu parecia tão madura quando decidi colocar um ponto final. Impossível dizer que você não marcou na minha vida, impossível dizer que você não marca, nossos rios estão por aí tocando em muitas músicas enquanto nossas mãos procuram o que tatear, enquanto nossos olhos, quando se olham, procuram o céu de tão tímidos, como se não coubessem um no outro. Engraçado, não? Depois de tanto tempo descobri que eles cabem sim e que, se em outros tempos fizeram questão de não se olhar direito, foi por criancice.
Hoje eu sei que aquela minha pose de adulta te deixando de lado e abrindo mão de um dos caminhos, e fechando outros caminhos em sua vida, não passou de uma fotografia, daquelas que algum tempo depois a gente não gosta mais e tenta rasgar, jogar fora, cortar... Mas não consegue porque sabe que o papel é apenas uma forma de materializar o que é impossível de apagar. E eu tenho receio de apagar as minhas coisas, acho que é por isso que eu sempre que reviro minha memória fico querendo falar alguma coisa, te apontar algum erro meu ou alguma paixão demais tua. Alguma coisa nossa.
Acho que posso chamar assim, né? De nosso, na primeira pessoa do plural, ou seja, um meu que é teu e um teu que é meu. Mas um nosso no passado, com as letras apagadas e as folhas já amarelando, pedindo para serem reescritas. E a gente sem tempo de nos reescrever ou quem sabe não seja tempo, não posso nunca decidir sozinha o que é nosso, posso apenas reabrir as portas.
E nesse espaço de tempo onde os dias sem se falar passaram, a reaproximação foi impressionante e as conversas cada vez mais constantes notei como tudo é apenas transformado e notei como nos transformamos e, assim, transformamos nosso amor. Estava lendo algumas frases e uma de Caio Fernando Abreu foi lá no fundo procurar que mais de íntimo eu tinha sobre nós. A frase? “Penso, com mágoa, que o relacionamento da gente sempre foi unilateral...” Quando leio frases como essa parece que estou lendo você, lendo seus olhos e desenhando um esboço dos seus pensamentos, pena que é só um esboço e um esboço a gente sempre erra e pode apagar e sabe que nunca vai ficar bom e um esboço quase sempre vai para o lixo por falta de utilidade, antes eu pensava que não, mas hoje sei que você pode me surpreender com muito pouco.
Não, isso não é uma carta de amor o um desabafo qualquer de uma "apaixonada", são algumas letras que eu acabei juntando por saber que sempre que eu junto algo nosso fico feliz, é bom saber que o nosso pode da certo, que o nosso pode ser reescrito, que nós só contornamos a tela, ainda falta pintar. E o colorido é sempre o mais importante, claro que o desenho que fizemos mostra um pouco essa coisa que ficou, faz viver o passado, mas as cores dão o significado de presente. Só espero que a pintura, mesmo assinada por cada um em um dos cantos do quadro termine lindíssima. E essa é a sensação que eu tenho, porque eu sei que juntos não fazemos feio, porque eu sei que juntos seremos um e assinaremos em um dos cantos do quadro e lembrar-nos-emos de muito tempo atrás com sorriso no rosto.
Aquele sorriso sincero, aquele abraço apertado. Eu sinto falta de quando os recebia espontaneamente. Eu sinto falta do teu cheiro que ficou por pouco tempo, da tua boa vontade comigo, dos nossos telefonemas. Eu sinto falta de nós, do nosso e sinto falta do que podemos fazer.
Eu estou tão sistemática, separando as coisas, analisando tempos verbais. Tenho essa mania, sabe? Mas estou também sentimental, cheia de pontos e vírgulas no coração procurando as palavras, procurando os gestos, não acho nada. Acho uma saudade aqui, outra ali, sem saber se as encaixo onde muitos dizem para eu encaixar.
Vou ficando por aqui que é pra saudade não aumentar, que é pro coração não apertar porque quando ele aperta parece que estou sendo abraçada por um gigante, ou melhor, por uma saudade gigante que não quer de jeito nenhum me largar. E apesar de gostar do abraço eu fico triste, porque saudade me faz lembrar tantas coisas, inclusive você, aí me vem aquela frase de novo, do nosso amor unilateral, que não era unilateral coisa nenhuma, que eu também gostava de você e não sabia e que agora tudo se transformou e eu estou prolongando esse sofrimento de falar-te isso tudo demais.
Saiba que dói aqui dentro ter que falar isso, mas dói ainda mais deixar engasgado um “amor recíproco infeliz”.
sábado, 15 de agosto de 2009
Um modo desajeitado de ser
Eu tenho em mim uma idéia um pouco desajeitada de ser, e acho que é culpa do receio que sinto sempre que uma situação nova aparece. Depois que eu comecei a entender o que meu pai e minha mãe diziam eu prestei atenção que a palavra “desajeitada” sempre apareceu muito, mesmo que de forma indireta, e muitas vezes ainda aparece. É difícil para alguém assumir esse tipo de comportamento, ninguém gosta de olhar pro espelho e ver que as letras escritas escandalizam a falta de cuidado com os afazeres. Muitas vezes a terapia ajuda a curar a ferida chamada insegurança, mas tão importante quanto uma terapia é mudança de hábitos.
Nunca acreditei que fosse fazer sentido, eu sempre apostei mais a organização do que na criação de estratégias. Nunca tinha pensando em usar as duas juntas, em contracenar comigo sem vergonha nenhuma, pintar os olhos e a boca e olhar para o espelho sem medo de me achar desajeitadamente ridícula e andar pelos cantos e recolher uma flor e dizer para todos que estão comigo como essa flor é linda sem ter medo de me achar desajeitadamente criança. Porque é quando começamos a achar os defeitos e a conviver com eles que começamos a mudar os hábitos que não gostamos. E aí o ser desajeitada ou vira ponto de referência ou vira ponto de vista.
Cada coisa que eu faço, eu faço sim como se fosse única, como se ela fosse escorrer pelas minhas mãos. Por isso que sempre que elas escorrem dá o desespero desenfreado de não mais saber o que fazer. Tenho que parar, olhar pros dois lados da rua e ficar um pouco parada. Nesses momentos eu preciso não ter medo de ser desajeitadamente adulta pra conseguir olhar os caminhos com olhos mais penetrantes e pra conseguir abrir as mãos e deixar que mesmo o que já quis escorregar vá embora de mim, sabendo eu que não vai por inteiro.
Dizem que as desajeitadas são as que amam mais, que olham para o amor sem medo de encarar porque só o reconhecem quando ele já se instalou, e tornam-se desajeitadamente adolescente, com aquele perfume peculiar de quem está sempre apaixonado, mas na verdade está amando.
É sempre assim, as pessoas vão ter sempre esse jeito delas de ser, desajeitado ou não e vão agradar ou não e vão se amar ou não e vão se odiar ou não e vão viver ou não. Porque para viver a gente precisa perceber esse modo nosso de ser e mesmo com todos os defeitos na pintura, aceitar. A vida é sempre uma questão de perceber com o olhar, prestar atenção, aceitar e mudar hábitos.
Nunca acreditei que fosse fazer sentido, eu sempre apostei mais a organização do que na criação de estratégias. Nunca tinha pensando em usar as duas juntas, em contracenar comigo sem vergonha nenhuma, pintar os olhos e a boca e olhar para o espelho sem medo de me achar desajeitadamente ridícula e andar pelos cantos e recolher uma flor e dizer para todos que estão comigo como essa flor é linda sem ter medo de me achar desajeitadamente criança. Porque é quando começamos a achar os defeitos e a conviver com eles que começamos a mudar os hábitos que não gostamos. E aí o ser desajeitada ou vira ponto de referência ou vira ponto de vista.
Cada coisa que eu faço, eu faço sim como se fosse única, como se ela fosse escorrer pelas minhas mãos. Por isso que sempre que elas escorrem dá o desespero desenfreado de não mais saber o que fazer. Tenho que parar, olhar pros dois lados da rua e ficar um pouco parada. Nesses momentos eu preciso não ter medo de ser desajeitadamente adulta pra conseguir olhar os caminhos com olhos mais penetrantes e pra conseguir abrir as mãos e deixar que mesmo o que já quis escorregar vá embora de mim, sabendo eu que não vai por inteiro.
Dizem que as desajeitadas são as que amam mais, que olham para o amor sem medo de encarar porque só o reconhecem quando ele já se instalou, e tornam-se desajeitadamente adolescente, com aquele perfume peculiar de quem está sempre apaixonado, mas na verdade está amando.
É sempre assim, as pessoas vão ter sempre esse jeito delas de ser, desajeitado ou não e vão agradar ou não e vão se amar ou não e vão se odiar ou não e vão viver ou não. Porque para viver a gente precisa perceber esse modo nosso de ser e mesmo com todos os defeitos na pintura, aceitar. A vida é sempre uma questão de perceber com o olhar, prestar atenção, aceitar e mudar hábitos.
domingo, 2 de agosto de 2009
Quanto tempo...
Eu não sei se conseguiria começar alguma coisa assim, com essa idéia de pouco que eu tenho quando penso no conjunto, com essa idéia de pouco que faço quando desenho o futuro. Muitas vezes eu acho que seria mais fácil se eu não parasse tantas vezes para pensar tanto, como paro. Para mim é difícil não organizar, apesar de ser desorganizada com algumas coisas materiais eu tenho um espírito um tanto quanto organizador, gosto de medir os sentimentos e saber até quanto chega a minha pressão quando eles passam dos limites.
Eu sei, gosto de complicar as coisas e pra conseguir colocar um ponto final, quase sempre passa do ponto porque eu demoro demais. Nunca consegui ser rápida pra notar e analisar os sentimentos e quando percebo, eles já estão fazendo a festa dentro e fora de mim. O problema é que eu nem sempre estou em ritmos para festas e balões coloridos, nunca disse mas sempre soube que sou uma caixinha de surpresas complicada de abrir e difícil de fechar, eu simplesmente não sei me responder.
Já tive a impressão de me traduzir em algo concreto, procurei música, trecho de livro, peça de teatro, filme, bebida, frases clichês, atrizes, cantoras, personalidades importantes, pessoas desconhecidas, ursinhos de pelúcia, desenhos, fotografia, móveis, curso superior e nada disso conseguiu exemplificar metade do que sou, do que eu era e muito menos o que eu já deixei de ser. Quando me disseram que eu ia crescer, eu sabia que não era no tamanho, mas não tinha certeza que mudaria tanto assim em tão pouco tempo.
Quis dá um tempo nas bobagens que escrevo, eu precisei de um tempo pra juntar as palavras, elas tinham sumido da minha alma como um amor interrompido que por caminho do destino se encontra já no final da vida e sabe começar do zero. Acho que esse é o segredo, começar sempre do zero porque quem costuma começar de onde parou vai sempre procurar os defeitos que já aconteceram até aquele momento. Quem começa do zero transforma, procura os defeitos não para deletar, mas para desfrutar.
Dúvidas são eternas, quem diz que não tem ou não sabe o que é bom ou quer saber de tudo ao mesmo tempo. Pra ser um pouco menos clichê, eu costumo dizer que sou um barco à deriva no meio de um rio longo e intrafegável. É bom experimentar as coisas e eu experimentei um momento de hiato criativo, não vou dizer que gostei de ter que engolir tantas palavras, algumas queriam sair da garganta gritando, mas continuaram aqui até que eu conseguisse digerir a vida. Não, eu ainda não consegui digerir a vida, mas consegui mastigar boa parte dela e cheguei até aqui com as lágrimas molhando o sorriso e de nariz empinado.
terça-feira, 30 de junho de 2009
Para acabar o mês com uma obra prima que fala por mim, sem voz nenhuma...
impressione-se com o Impressionismo: The Studio Boat , Claude Monet
impressione-se com o Impressionismo: The Studio Boat , Claude Monet

sexta-feira, 26 de junho de 2009
Da pobreza do amor
Pobre é o ser apaixonado que só quer enriquecer aquilo que ama, deixando de lado até o seu amor. Pobre é o ser apaixonado que, de tão cego, emudece o pensamento e deixa-se falar pelo coração.
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